Moinho de Vento

Moinho de Vento

MOINHO DE VENTO

Hoje, o sol de inverno esquenta as paredes ressecadas pelo tempo. Não se escuta mais o som de crianças, nem o ruído sonolento das carroças e carretas, nem o relincho dos cavalos. Não entendo por que tudo terminou, foi de repente como se um vento passasse aqui levando todo e qualquer valor que eu tinha. E eu tinha valor... Em cada pedra, em cada grão de areia, em cada pedaço de madeira ainda persistem as lembranças de quando tudo começou...

Eu surgi num sonho de um jovem engenheiro, lá na Alemanha. Era o começo de um novo século, era o início de toda a minha vida. Em busca desse sonho, o jovem alemão resolveu enfrentar o oceano, juntou o pouco que tinha: sua mulher, seus cinco filhos e sua incessante vontade de vencer. O navio era imenso, mas pequeno para um sonho como eu... Vim apertadinho, junto a roupas amareladas pelo tempo, só eu cheirava à goma. O navio sacolejava e eu enjoando como todo mundo. Há pouco nascera e já exposto àquela viagem cruel. O medo das tempestades era constante, a noite era fria e o céu estrelado...

Perdi a conta de quantos dias naveguei. Então numa manhã, ouvimos os gritos dos marujos: “terra à vista”. Foi uma emoção: entre o céu e o mar, uma barra verde. Era o novo mundo! A terra dos sonhos espalhados ao vento! O começo de tudo para quem não tinha mais nada a perder.

Fomos descendo. Eu pesava de tanto desejo de crescer. A primeira brisa deu arrepios, talvez bobagem, talvez mau presságio. Passamos dias procurando um lugar adequado para abrir as malas e plantar os sonhos. Sofria junto ao meu jovem amigo ao ver seus filhos chorando de fome, frio, desolação... Consolava-o a doce amada, encorajando-o, tecendo os sonhos ao pé do fogo. Apesar de tudo, ele nunca me esquecia. Abria um cantinho da mala, sempre, e espiava como que para conferir se eu estava bem.

Então chegou a notícia: um lugar! Foram semanas viajando até chegar à margem de uma cachoeira, não era imensa, não era um rio, era menina peralta escorrendo por entre as pedras. Em nossos semblantes os respingos dela foram tornando-se salgados. Não entendia por que chorar, mas precisava... Foi a primeira vez.

Se até então fora difícil, dali em diante não seria diferente. Com o frio estávamos acostumados, mas o sol de janeiro e fevereiro era novo e cruel. Malas desfeitas. Começava a batalha.

O moço engenheiro, o Bruno – havia me esquecido de dizer seu nome, coisas de velho – contratou empregados e buscou material, dessa maneira começou minha construção.

Seis meses passados, rancho feito, material arrecadado. Ergueram-se as paredes, em cada carreiro de pedras meu sangue circulava por maior extensão. Até corpo completo foi um século de espera. Treze meses após nossa chegada, eu estava ali, garboso e ameaçador. Olhava de cima para quem me vira apenas um papel.

Muitas mãos feridas, suor, lágrimas e sangue para instalar meu coração. Dezoito meses, as águas represadas e então minha alma chegava... Tocava meu coração, que impulsionava todos os demais órgãos. E saía o primeiro quilo de farinha, tão dourado como nossos sonhos. Vencíamos!

Desde então eu não parava. Meu amigo chamou-me Moinho Santa Glória. Vinham pessoas de longe, trazendo cargas de grãos – milho, trigo. Também vinham as pessoas descalças com um pacotinho, muito modesto, sonhando com o pão de cada dia para os filhos pequenos. Todos os grãos eu transformava em farinha, pão. Tudo embalado pelas cantigas infantis.

Quando a noite caía, naquelas quando não havia tanto trabalho, a turbina parava, a farinha baixava no ar e as crianças aproveitavam para brincar de fadas. Assim foi a vida por anos e anos...

Porém as crianças tornaram-se moços e moças, casaram. Novas crianças surgiram, também cresceram. Assim era a vida, assim eu envelhecia... Já não moía apenas farinha, mas também cevada. Crianças, grãos, produtos... Até que veio a guerra, a segunda, era longe, mas as consequências próximas, bem próximas...

Prenderam Bruno, afinal era alemão. Para eles não importava que era pai, meu pai, que passara dificuldades, desbravara pedras, construíra. Levaram-no amordaçado, puxado por cavalos, como os antigos escravos. Eu chorava, será que ele voltaria? Será que não poderia criar minha irmã, a fábrica de massas? O que aconteceria?

Depois da ira, os soldados devolveram Bruno, mas ele não era mais o mesmo: calado, cabisbaixo, ferido, não só o corpo, mas a alma. Aquela terra promissora, com quem tanto sonhara, mostrou outra face, ingrata, comum a tantos colonos humildes. Eu também sofria, começavam minhas penas.

Meu amigo atravessou o oceano para buscar material a fim de curar-me. Ele não sabia, minha doença não era física, era a alma que adoecera, igual a ele. Em menos de meio século, os sonhos de Bruno estavam enterrados, sem sonhos se morre, com ele não foi diferente.

A partir de então, os descendentes de meu criador tentaram me impulsionar, mas não era igual. Começou a funcionar uma serraria em minhas entranhas. Todo aquele movimento não me alegrava mais. Serra, turbina, crianças, tantos sons; farinha, cevada, madeira, minhas lágrimas...

O dia mais triste, quando não parei e feri mortalmente uma criança que fora brincar. Eu, criado para gerar vida, causava morte! Insuportável!

Chegaram as leis, impostos altos. A ferrugem grossa cobriu meus órgãos, não há cura, vou morrendo.

Carroças, carretas, crianças não ouço mais. A farinha ficou entre minhas tábuas, misturada ao pó do cupim. Todos se foram. Vestígios deles ficaram: a escola, a igreja, o nome do local onde estou enterrado. As décadas arrastam-se e vou perdendo meus pedaços: janela, telha, assoalho, pedra. Com cada um morro um pouquinho mais.

Se pudesse pedir algo, pediria que me preservassem. Não posso, sou apenas um prédio velho com uma alma sedenta de suas lembranças e carinhos. Hoje ouço o vento, que varreu todos os sonhos, todas as pessoas, toda a vida. Assim é o tempo que me transformou neste velho moinho de vento.

Faustia 

Cheiro de Arte Poemas, Crônicas, Literatura Infantil e Contos.


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