As Histórias nossas de cada dia

As Histórias nossas de cada dia

 

Quando pensamos em ficção, relacionamos logo a algo incomum, fantástico, irreal. Entretanto a verdadeira ficção ocorre todos os dias ao nosso redor, no nosso jardim onde a relva cresce milímetro a milímetro a cada instante, nos raios de sol que desenham luz em nossa janela e nas pessoas – ah, as pessoas! São elas que nos surpreendem, basta observá-las por alguns instantes.

Uma dessas pessoas, que tive a oportunidade de observar e conviver, foi meu avô. Gostava de televisão, prazer que conheceu no final da vida e que lhe deixava totalmente alheio a tudo o resto em sua volta. Tinha pouco estudo, acho que três anos apenas, mas lia, tinha uns óculos quadrados e pretos que ele usava. Trabalhava com madeira, terra e tijolos. Tudo com arte de artesão. Mas o melhor eram os brinquedos: boizinhos de sabugo de milho, amarrados com cordão no gravetinho esculpido em forma de jugo, prontinhos para puxar uma carreta imaginária; o “pára-Pedro", um bonequinho de madeira com um ímã que não ficava em pé nunca e assim por diante.

Uma vez teve um bezerro que machucou a perna com uma corda, tanto que a parte inferior atrofiou e morreu. Todos diziam que era para ele sacrificar o animal, pois não serviria para nada. Ele, teimoso como só, tratava o bichinho como todos os demais, dava alimento no balde e carinho. O animal cresceu, sempre manco, sempre amável, onde quer que ouvisse a voz de meu avô saía correndo ao encontro.

Outra teimosia era com as florestas. Numa época em que não se cogitava problemas ambientais, que madeira nativa valia bastante e podia ser comercializada, quando não havia risco de falta de água no planeta, nem aquecimento global, nem camada de ozônio, mesmo assim ele não deixava cortar nada. Ninguém tocava em uma árvore sem sua autorização, que geralmente não ocorria. Tinha os espaços em torno das nascentes e riachos bem preservados. Sofria muita crítica por essa teimosia com as árvores. Ninguém compreendia aquilo.

Hoje, quando enfrentamos todo esse desgaste ambiental que compromete nossa saúde e nosso planeta, lembro dele. Como sabia dessa necessidade de preservação? Era quase analfabeto, "campeava as palavras", como ele mesmo dizia. No entanto, era sensível ao enlace da vida, a esse tecido de que fazemos parte onde a falta de um de seus fios compromete a existência de toda a trama. Para isso não precisamos de grande formação acadêmica ou ler teorias mirabolantes de pensadores famosos. Para isso, basta “campear” o nosso senso de respeito à vida e aos outros, assim salvaríamos a nossa existência ou, ao menos, faríamos dela algo que realmente valesse apena.

 

Faustia

Cheiro de Arte Poemas, Crônicas, Literatura Infantil e Contos.


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