A SACOLA

A SACOLA

Desce do ônibus uma senhora, representa uns oitenta e poucos anos, segura fortemente uma sacola. Olha para os lados, busca o relógio no pulso.

− Vovó, que bom lhe ver! – fala uma menininha ruiva de uns sete anos, correndo e abraçando a senhora.

− Ah, mamãe, não precisava trazer nada, arrumamos tudo lá em casa, assim não carregaria peso! Fez boa viagem? – disse uma mulher que também abraça e logo toma pela mão da senhora.

Todas seguem para a área de embarque da rodoviária, a criança agarrada à avó.

− Olá, dona Chiquinha! Como foi a viagem? – aborda um homem ao lado de um carro.

− Foi boa, querido! Tantos lugares bonitos... – fala a senhora, abraçando-o.

− Vamos? – diz o homem auxiliando dona Chiquinha a entrar no carro. A criança segue segurando a avó.

− Precisamos passar na fruteira antes de ir para casa − afirma a mulher ao entrar no carro.

­− Vovó, vou lhe mostrar a Lulu, a minha cachorrinha. É pretinha com pintinhas brancas – conta a menina acariciando a mão da senhora. – O que tem na sacola? – indaga a criança. – Tem presente para mim?

− Tem sim, Laurinha, tem uma lembrancinha, querida! – dona Chiquinha beija a neta.

− Não precisava se preocupar, mamãe!

− É, dona Chiquinha – complementa o homem. – Queremos que fique bem, sem nenhuma preocupação.

− Olha! A fruteira! – fala subitamente a mulher.

O carro é estacionado.

− Quer ir conosco, mamãe? – convida a mulher saindo.

− Não, obrigada, Lúcia. Vou ficar – diz dona Chiquinha segurando firmemente sua sacola.

− Não precisa ter medo, dona Chiquinha, aqui é um lugar bem tranquilo, pode deixar sua sacola no carro e vir – afirma o homem.

− Muito obrigada, Léo, não estou receosa, apenas um tanto cansada da viagem.

− Vou ficar com a vovó – interrompe Laurinha – temos muito para conversar, não é vó Chiquinha?

− Sim, minha querida, muitas histórias e novidades.

− Então, vou deixar vocês um instantinho – fala Léo, também saindo.

Dona Chiquinha e Laura ficam quietas e observam o casal que entra na fruteira. Mas logo a avó sobressalta-se com uma buzina de um caminhão e olha para as pessoas profundamente.

− Vovó, não precisa ficar preocupada, eu estou aqui! – assegura Laura acariciando a mão de dona Chiquinha, que logo abraça a pequena.

− Sabe, querida, quando eu tinha sua idade tinha muito medo do escuro. Minha mãe então fez uma boneca de pano e colocou no vestidinho dois botões prateados, pois à noite eles brilhavam, assim quando eu sentisse medo era só agarrar a boneca e olhar para os botões, era o amor de minha mãe velando o meu sono.

− E onde está essa boneca, vovó Chiquinha?

− Eu trouxe para você, mas só vou entregar quando chegarmos em casa. Ela já está velhinha, que nem eu, mas os botões continuam brilhando no escuro.

− Vou amar muito ela! Como é o nome?

− Eu chamava de Zazá!

− É um nome bonito, vovó!

Léo e Lúcia voltam, guardam as compras e entram no carro.

− Mamãe, vamos fazer lasanha? Comprei os ingredientes. O que achas? – convida Lúcia ao entrar no carro.

− Ah, com certeza, adoro fazer e comer lasanha – afirma dona Chiquinha entusiasmada. – Mas faz tempo que não faço, pois seria muita comida para uma pessoa só.

− Mas agora, dona Chiquinha, tem muita gente para dividir a lasanha! – fala Léo animado.

− Eu amo lasanha! – diz Laura batendo as mãozinhas várias vezes.

Léo liga o rádio, que toca músicas de Vinícius. Dona Chiquinha cantarola baixinho.

− Um grande poeta, dona Chiquinha – afirma Léo.

− Eu e o pai de Lúcia costumávamos ouvir todas as noites as músicas dele, na varanda, olhando pirilampos e estrelas. Bons tempos!

− Eu me lembro, ficava brincando, depois adormecia na rede.

− Depois seu pai lhe levava para cama.

− Chegamos! – festeja Laura. – Vou mostrar a Lulu.

O carro entra numa rua estreita, de casas bastante parecidas em sua arquitetura, um pequeno gramado na frente, varanda, algumas com plantas ornamentando, outras com banquinhos de madeira ou cadeiras plásticas, duas janelas de frente para a rua, uma porta e um portão para o pátio. As cores eram as mais variadas. Raras casas fugiam desse padrão.

Mal estacionam, Laura corre para casa saltitando. Assim que a mãe abre a porta, a menina já traz nos braços Lulu, que se remexe toda e late insistentemente. Dona Chiquinha desce segurando sua sacola, entra na casa e senta-se com Laura e Lulu no sofá. Lúcia e Léo levam as compras para cozinha, Lulu vai atrás.

− Vamos ajudar a fazer a lasanha, Laurinha? – convida dona Chiquinha, aconchegando na poltrona sua sacola.

− Vamos, mas e a boneca?

− Ah, sim, podemos almoçar primeiro? Estou com bastante fome, além disso, acho que a Zazá deve estar dormindo – brincou dona Chiquinha fazendo sinal de silêncio para Laura.

As duas vão até a cozinha, também.

− Mamãe, já coloquei o frango para cozinhar – explica Lúcia.

− Posso picar os temperos, se quiser – fala dona Chiquinha.

− Eu ajudo a vovó – saltita Laura acompanhada por Lulu.

− O seu pai, Lúcia, adorava lasanha aos domingos – lembra dona Chiquinha.

− Também galinha assada no forno do fogão à lenha com aquele pire que só você faz, mamãe – acrescenta Lúcia mexendo o frango para descongelar e desfiar. − Já eu preferia os doces em calda e, principalmente, o pudim de laranja.

− Amanhã farei o pudim, pode ser? – pergunta dona Chiquinha picando cebola e alho alcançados por Laura.

− Hum! – dizem todos em coro.

− Os temperos estão prontos, filha – diz dona Chiquinha alçando à Lúcia um potinho.

− Ah, sim! Já vou colocar na carne, está quase cozida – explica Lúcia mexendo na panela.

Dona Chiquinha abre o pacote da massa. Logo Lúcia traz a panela e coloca sobre a mesa.

− Hoje vem tudo quase pronto, Lúcia – diz dona Chiquinha, enquanto larga as fatias de queijo sobre a massa e o molho, já organizados pela filha.

− Verdade, mamãe! – fala a mulher levando a lasanha ao forno. − Lembro de fazermos a massa em casa, o queijo e a carne também eram produzidos no sítio. Mercado e cidade eram raros em nossas vidas naquela época.

− Laurinha, ajuda a pôr a mesa, filha! – pede Léo pegando os pratos no armário.

Laura corre para estender a toalha e trazer talheres. Logo o cheiro da lasanha invade a cozinha. Léo prepara suco de limão e Lúcia faz uma salada com tomates e alfaces. Dona Chiquinha embala a neta no colo e, de vez em quando, espia sua sacola sobre a poltrona.

− Vamos degustar, pessoal! – convida Léo colocando a jarra com o suco sobre a mesa.

Todos comem ouvindo os relatos de Laurinha sobre as traquinagens de Lulu. Depois, sentam-se na sala, dona Chiquinha retoma sua sacola.

− Agora, pode me mostrar, vovó? – pede Laurinha.

− Ah, sim, minha querida! – diz dona Chiquinha abrindo a sacola e tirando uma boneca de pano, com vestidinho de retalhos, cabelos de lã desbotada e botões dourados.

− Nossa, a Zazá! – exclama Lúcia.

− Ainda lembra? – admira-se dona Chiquinha.

− Como esquecer a boneca que brilha no escuro, mamãe! – diz Lúcia acariciando os cabelos de Zazá.

Laura toma Zazá nos braços e envolve a boneca num abraço carinhoso.

− Ela é linda, vovó Chiquinha! – festeja Laura.

− E o que mais tem nessa sacola, dona Chiquinha? – indaga curioso Léo.

− Ah, sim! Para você e Lúcia eu trouxe isso! – responde dona Chiquinha alcançando um álbum antigo.

− Nossas fotos, mamãe! – fala Lúcia tomando o presente cuidadosamente. – Aqui existem fotos desde o casamento da mamãe e do papai – afirma a mulher mostrando as imagens ao marido.

− Bem, agora que já entreguei os presentes, será que posso dormir um pouquinho? – pergunta dona Chiquinha.

− Claro, mamãe! Já sabe onde é o quarto, fica à vontade para fazer o que quiser! – diz Lúcia observando com detalhes o álbum. – Nós ficaremos aqui relembrando.

− Então, vou indo! – explica dona Chiquinha, dirigindo-se ao quarto, levando sua sacola.

Ao fechar a porta, a senhora olha ao seu redor, acaricia os móveis, observa através da janela por onde escoa o sol. Depois, abre sua sacola, tira um porta-retrato com uma foto antiga de um jovem casal sorridente. Coloca o objeto sobre uma mesinha ao lado da cama. A seguir, toma da sacola uma colcha feita de retalhos das mais variadas estampas e espécies de tecido, estende-a sobre a cama com delicadeza, deita-se aconchegadamente puxando a colcha sobre seu corpo, abraça o porta-retrato, suspira e, enfim, adormece sorrindo.

Faustia

 

Cheiro de Arte Poemas, Crônicas, Literatura Infantil e Contos.


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